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Mostrando postagens de março, 2019

O quarto de costuras

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Nos anos 50, a maioria das mulheres ou sabia ou tinha que costurar. Nada de lojas abarrotadas de roupas. Na Lapa apenas algumas casas, assim eram chamadas as lojas, ofereciam roupas prontas. Alguns manequins empoeirados exibiam as melhores confecções; as roupas eram acondicionadas em caixas nas prateleiras, eram postas no balcão para escolha do freguês. Minha mãe costurava e muito, porque sabia e porque tinha necessidade. Quatro filhos para vestir além dela própria. O ofício fora aprendido quando muito jovem, com seu irmão Osmário que cortava camisas e ternos. Assim ela se tornou exímia na máquina de costura. Todo dia, filhos prontos, uns no colégio e os mais novos sendo "pajeados", ela se sentava à Singer. Nos primeiros tempos somente com o pedal, depois foi introduzido um pequeno motor. De lá saiam vestidos, pijamas, calças e até mesmo casacos. Só os ternos e camisas de meu pai eram obra do alfaiate. O quarto de costura ficava nos fundos da casa, uma janela para o quinta...

O quintal

As casas todas tinham quintal. Jardim de frente para a rua, apenas as que eram recuadas. Assim era nossa casa na Av. Manoel Pedro. Roseiras, duas palmeiras que meu pai mandou vir não se sabe de onde, uma primavera (ou buganvília) que cobria o caramanchão, glicínia, hortênsias, cravos, e o gramado.  A aventura corria solta mesmo era no quintal. Após o pátio calçado havia a cerca que dava para o quintal, chamado de quintal das galinhas para diferenciar do quintal ao lado, uma pretensa horta. Nela quase nada crescia, precisava de cuidados e tempo, este minha mãe quase não tinha. Dominando a horta, uma macieira na qual eu subia e no tempo de maçãs colhia as poucas maiores e mais maduras. Sempre com o risco de cair, o que nunca aconteceu. As pereiras se enfileiravam no quintal das galinhas. Nos fundos o chiqueiro e o galinheiro. De vez em quando descobria-se um ovo ainda quente no meio da palha. E no chiqueiro um porquinho,  quase sempre presente que meu pai recebia em gratidão p...

A morte de meu avô materno

Agosto de 1960, dia 09, não costumo lembrar de datas, mas esta é inesquecível. Meus avós tinha viajado para o norte do Paraná para visitar em Tamboara (se não me engano) a família de meu tio apelidado de "Polaco". No retorno para a Lapa, na altura de São Luis do Purunã, sofreram um acidente. A camionete vinha cheia: motorista, meus avós, meus tios e seus cinco filhos: Ana Néri, Jurema, Avelino, Marquinhos e Maria Lídia. Meu avô teve sérios ferimentos, Ana Néri e a avó menos graves. No hospital em Ponta Grossa foram dias de muita angústia e expectativa. O anúncio da morte do vovô foi um choque, em especial para as filhas, minha mãe em particular. Gritaria, injeção para acalmar, meu pai fazendo de tudo para que nós, crianças de 10 a 4 anos, não ficássemos tão apavorados. Fomos para a vizinha, dia seguinte para a casa de minha outra avó, assim ficaríamos longe daquela situação traumática. Duas experiências deste dia: minha tia ofereceu ovo cozido no vapor em um copo. Fazen...

Minha avó e meu avô maternos

Dona Lídia, era casada com seu Avelino, 8 filhos, dedicação à casa, ao  marido, à cozinha, com seu cabelo preso, roupas simples, também costurava. A casa, um pouco acima da nossa, na mesma rua, estilo português, dava (e dá, a casa ainda resiste firme e forte) diretamente na rua. A outra entrada, era a da padaria dirigida pelo meu avô. Balcão de madeira, outro balcão para as contas atrás, bem alto. Na passagem para a casa um compartimento abarrotado de farinha e a balança de chão. Era uma alegria subir nos sacos e de lá saltar. Quando chegávamos minha avó estava cozinhando ou lavando, ajudada por um piazinho, a quem chamávamos de Uruzinho. O café era na caneca esmaltada, e a despensa continha alimentos que não pereciam. O mais impressionante, uma lata com banha de porco e pedaços do mesmo já cozidos.  O prato mais memorável e saboroso de minha avó era o macarrão de forno feito por ela, grandes tiras recheadas de frango refogado, bem corado e temperado. Algumas vezes fui do...

Avó paterna

Minha avó Cecília teve 15 filhos, destes se criaram 13. Ela era curitibana, se casou com um lapiano, José Lacerda. Ela da família Brito e ele filho único de meu bisavô, Cel. Joaquim Correa de Lacerda.  Aos 15 anos se viu esposa e logo futura mãe, naquela imensa casa que descrevi anteriormente. Valiam e muito, a paixão que o casal nutria um pelo outro, e a preciosa ajuda da sogra, Madalena. Esta, corajosa gaúcha que jamais retornaria à cidade natal. Quando minha avó Cecília enviuvou, passou uns tempos com a filha Lia em São Paulo, depois foi morar em Curitiba, a pacata e suburbana Curitiba do começo dos anos 50, na rua Augusto Stellfeld, bem no centro. Nossa família ainda morava na Lapa e sempre que havia alguma comemoração ou, o mais frequente, uma doença de um de nós quatro (eu, Leduína, André e Francisco) que deixasse meus pais quase em pânico, a solução era viajar na estrada de chão até Curitiba. Nos hospedávamos na casa de minha avó, todos no mesmo quarto dos fundos. Depois...

Jardim de infância

O colégio São José ficava a uma quadra de casa. Nossa casa na Av. Manoel Pedro, o colégio na rua Barão do Rio Branco. A Lapa nos anos 50 era uma tranquila cidade do interior, poucos automóveis, entre eles se destacavam os de Lindolfo e do Juca, os motoristas de praça. O movimento maior era o de carroças que transportavam mercadorias das colonias e até mesmo o lixo era recolhido por carroça. Não havia perigo em atravessar a rua Barão e chegar ao colégio. Mesmo assim minha mãe se preocupava e em geral a pagem acompanhava. Estranharam o nome de "pagem"? Era assim que se chamava às babás. Entrava-se no colégio, que ocupava quase toda a quadra, pelo portão do lado, que dava acesso ao pátio externo e ao pátio interno. Neste havia bancos junto às paredes. A sala do jardim de infância era a última, crianças se agrupavam em mesinhas, com seus lápis e cadernos. Predominava o cheiro do grafite dos lápis, misturado ao das crianças. O quadro negro só era acessível aos professores, quase...