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Mostrando postagens de abril, 2019

Tia Vera

Disposição, organização, múltiplas habilidades, presteza, assim era a incansável Tia Vera. Oito filhos, quase que em seguida um do outro. A casa onde moraram na Lapa, antes da mudança para Curitiba, ainda serviu durante muitos anos para as férias. Quartos enormes, idem a copa, a sala e a cozinha. Acanhado e simples era o único banheiro, as crianças precisavam esperar que o ocupante se decidisse a sair. As filhas Nina e Vera Maria organizavam a casa logo cedo, nossas brincadeiras só podiam começar depois de elas varrerem os quartos, passarem a enceradeira, com as camas já arrumadas. E esse era um dos segredos da casa sempre em perfeita ordem, a distribuição de tarefas. Assim Tia Vera conseguia dar conta de tudo, tricotar, costurar, atender os mais novos, cozinhar, satisfazer os gostos e hábitos de meu tio, Luciano. Este só dormia com absoluto silêncio, conta-se que chegou a dar um fim no galo do vizinho cujo canto deveria ser alto no silêncio da cidade pacata. Se entrássemos na ca...

Tia Lourdes

Parecia um longo caminho até a casa da Tia Lourdes, mas eram 5 quadras apenas, precisava passar pelo asilo das meninas órfãs e fazer o sinal da cruz em frente à pequena gruta com imagem de Nossa Senhora. A casa ficava duas quadras adiante, numa esquina e na esquina oposta havia o açougue de meu tio, Tio Carlito. Ao entrar pela cozinha,  sentia-se o cheiro dos pães recém saídos do forno, postos para esfriar na  mesa redonda,  sempre cobertos por causa das moscas. E estas devido aos animais, vacas e porcos, que habitavam o enorme quintal. Certa feita experimentei e não gostei do leite tirado na hora pela Tia Lourdes, com espuma e ainda quente. Havia na passagem para o quintal uma casa que servia de lavanderia, com um tanque enorme e uma laranjeira que carregava. As laranjas eram retiradas de baciada, e lá estávamos nós, eu, minha irmã e a prima de minha idade, Beatriz, mais a tia e minha mãe. Laranjas eram descascadas apenas na tampinha onde púnhamos um pouco de sal para...

Brincar, brincar, brincar...

O meu primeiro brinquedo foi um urso de pelúcia recheado com areia que ficou inutilizado depois de um mergulho na banheira. Isso contava minha mãe. Mais brinquedos viriam, principalmente, mais e mais brincadeiras. No quintal, subir em árvores, no telhado, escalar muros, pular corda, ganhavam impulso quando os primos e primas, além dos vizinhos, apareciam. Meu pai mandou construir duas casinhas, uma para mim, outra para minha irmã.  Eram de madeira e com comunicação por uma portinha, as janelas se fechavam com tranca. Imitávamos a lida doméstica: o rganizar a casinha, limpar e deixar tudo um brinco, encerar, por os móveis no lugar, um vaso com flor na mesinha, mas, principalmente, soltar a imaginação. O mundo como que ficava em suspenso, o tempo parava ali dentro. Quando nas férias de verão chegavam os netos de Seu Amaral, nosso vizinho, nos transformávamos em polícia e ladrão. A emoção era descobrir os que haviam se escondido. Com a correria vinham o suor, a sede e a fome. Por...

O escritório de meu pai

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A placa em frente de casa anunciava, escritório de advocacia, Francisco Brito de Lacerda. Os primeiros anos foram difíceis, até que aos poucos apareceria a clientela. Foi ganhando confiança e o serviço aumentou. Todos os dias, ali pelas oito, depois do café bem forte e do primeiro cigarro, era só atravessar a sala da frente e entrar pela porta lateral. Já na sala havia uma estante em que colecionava pareceres jurídicos, todos eles encadernados em capa dura vermelha. Fazia um bom efeito na decoração. No escritório a mesa de trabalho, estante com porta de vidro, um arquivo de madeira, pequeno móvel que se abria por uma porta de esteira. Nele eram guardados em geral os inventários. Numa mesinha ficava a máquina de escrever. Muito inábil e desajeitado para tarefas manuais (com exceção de fixar pregos), naquela máquina preta, a fita rodava rapidamente.  Se não me engano, a marca era Royal.  Os toques eram precisos, errar implicava em estragar a página. As cópias eram feitas co...