O quarto de costuras

Nos anos 50, a maioria das mulheres ou sabia ou tinha que costurar. Nada de lojas abarrotadas de roupas. Na Lapa apenas algumas casas, assim eram chamadas as lojas, ofereciam roupas prontas. Alguns manequins empoeirados exibiam as melhores confecções; as roupas eram acondicionadas em caixas nas prateleiras, eram postas no balcão para escolha do freguês.
Minha mãe costurava e muito, porque sabia e porque tinha necessidade. Quatro filhos para vestir além dela própria. O ofício fora aprendido quando muito jovem, com seu irmão Osmário que cortava camisas e ternos. Assim ela se tornou exímia na máquina de costura.
Todo dia, filhos prontos, uns no colégio e os mais novos sendo "pajeados", ela se sentava à Singer. Nos primeiros tempos somente com o pedal, depois foi introduzido um pequeno motor. De lá saiam vestidos, pijamas, calças e até mesmo casacos. Só os ternos e camisas de meu pai eram obra do alfaiate.
O quarto de costura ficava nos fundos da casa, uma janela para o quintal, a outra para a garagem. Nos cestos os tecidos e aviamentos, na mesa de cortar algumas revistas com moldes, tesoura, alfinetes. Ao lado da máquina o cinzeiro que ao final do dia estaria cheio.
A função de costurar implicava a compra de tecidos, em geral na Casa Pernambucana, Praça da Igreja. 
E quem diz que a escolha era rápida? Era preciso examinar com os olhos e o tato, o tipo de fio, as cores, a estamparia. Por vezes tínhamos que sentar na porta da loja esperando a decisão. Uma montanha de peças empilhadas para finalmente, decisão tomada e quantos metros levar, vinha o corte, o empacotamento e a volta para casa.
Faceira em vestido do noivado, claro, feito por ela
Os vestidos de baile, o vestido de seu noivado, os inúmeros vestidos para nós, as duas filhas, o meu de primeira comunhão, todos saiam de suas mãos. Tínhamos que ficar quietos para que ela tomasse as medidas, que eram anotadas. Depois vinham as provas, alguns alfinetes cutucavam, mas a recompensa surgia, o lindo vestido ou a fantasia tão aguardada para o carnaval.
Tínhamos que colaborar indo comprar o aviamento que faltasse. Quase sempre na loja em frente, a do Darci. Fitas, botões, linhas, reco-reco (= zíper), elástico, rendas.
Certa feita, econômica como ela só, costurou para mim um pijama só de restos de tecidos emendados uns nos outros. Ficou apertado, mas usei assim mesmo. Crianças em geral não se queixavam.
De outra feita ganhei um vestido feito de seu próprio vestido verde xadrez, adaptado para mim. Desta vez ficou grande e comprido, usei dias seguidos, orgulhosa da saia longa.   
Ainda ouço o ruído da máquina.

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