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O tanque do Nestálio

  Era o verão de 1958, Lapa, férias e muito calor. Sem piscina (que ainda seria construída e anos depois abandonada), os passeios em busca de rios, cachoeiras ou até mesmo banhos de mangueira valiam para refrescar e, principalmente, divertir. Numa destas tardes, não diria tão fagueiras assim, pais, tios e a primarada Lacerda saímos para um desses passeios. O escolhido foi o tanque do Nestálio. O rio da Várzea ficava longe, o Piripau, muito acanhado para tanta gente. Cada família levava seu farnel, um tipo de piquenique, mas a diversão mais esperada era o mergulho no dito tanque. Claro que não era um tanque tão pequeno, nem tão fundo. De uma parede que servia de dique, escorria água, formava-se quase que uma cascata. Com a roupa de banho, geralmente improvisada, caíamos na água, um tanto fria, mas logo a gente se acostumava.  Eu tinha meus 8 anos incompletos, adorava uma água, a ponto de entrar no tambor que armazenava água no nosso tanque de lavar roupa, o nome "lavanderia" n...

As feridas que marcam

 Ontem, dia 26 de fevereiro, fez um mês da morte de minha irmã Leduína. Um acidente na infância nos marcou, a mim por me sentir culpada, a ela por perder parte do dedo médio. Foi ferida incurável. Levou muito tempo para eu entender que não se culpa uma criança pelas brincadeiras. Se hoje em dia pais e responsáveis estão mais atentos, até mesmo em demasia, na década de 50 ficávamos mais soltas, havia quintais, vizinhos, bairros e mesmo a pequena cidade da Lapa que não ofereciam perigo. A ferida em minha irmã foi mais marcante, afetou a todos da família. Em um rompante de que apenas hoje me dou conta, soquei a vidraça da vizinha de minha avó, me machuquei de propósito. Era Natal e o vestido de festa ficou todo ensanguentado. Eu também precisava de uma ferida, de atenção e como que de resgate. No caso dela, um silêncio, a marca era disfarçada, vista como um defeito deveria ser escondida de todos. Claro que não dela. Um temperamento frágil e uma super proteção a fizeram dependente, inc...

Os armazéns da Lapa na década de 50

  Na minha vizinhança, av. Manoel Pedro, ficavam armazéns com grande freguesia, como o dos Kuss (será essa a grafia?), do Seu Guerino, das irmãs Delgadio, a padaria de meu avô, e mais longe, no fim da mesma rua à direita, as vendas de cereais, entre elas a dos Pierin. Vendia-se de tudo um pouco, para usar a qualificação antiga, secos e molhados. No seu Guerino predominava o cheiro de fumo, cujos rolos ficavam logo na entrada. Havia um balcão de madeira em L atrás do qual atendiam o próprio Seu Guerino, alto, meio calvo, rosto cheio e simpático, um constante sorriso e sua irmã com três filhas que moravam no próprio imóvel do "negócio". Assim eram também chamados os armazéns.  No balcão os vidros de doces e a balança para pesar arroz, feijão, trigo, farinha de milho e de mandioca. Nas prateleiras os enlatados. Pendurados num arame as linguiças e salames. Ainda havia bananas, só as caturras, e ainda no chão algumas utilidades, entre elas cordas que pedíamos para medir e cortar, ...

As paradas escolares de 7 de setembro

  Na Lapa de minha infância, o Colégio São José era um centro de integração na pequena comunidade. As freiras e seu ensino eram prestigiados, o prédio era como que um marco na rua Barão. Uma das atividades esperadas com ansiedade eram os desfiles, também chamados de paradas do dia 7 de setembro. O primeiro treino no pátio interno servia para a formação das filas, retas, para acertar o passo direita esquerda, direita esquerda. Muitas tentativas depois, os grupos por turma poderiam sair às ruas para novos ensaios. No fim de agosto, inícios de setembro havia dias de sol e calor, apesar da estação inverno. Com sede, alguns alunos batiam na porta das casas para pedir um copo d'água e eram de pronto atendidos. Suados e cansados, retornávamos ao colégio, cada vez mais confiantes e preparados para fazer bonito no dia tão aguardado. Quando eu estava no 3o ano, as filas se formavam por tamanho e eu, entre os mais baixinhos ficávamos nos primeiros lugares. Minha esperança era, no ano seguinte...

Minha irmã Leduína

  Eu estou aqui, agora, escrevo, vejo-me diante do computador, em minha casa, sons dos carros, latidos de um cachorro, vou preparar o almoço, estou viva. A irmã mais nova, contrariando a expectativa de que viveria mais do que eu, não está mais aqui. Não vai mais enviar mensagens, telefonar, se queixar, mostrar toda sua fragilidade e apego ao que a mantinha à tona.  Pai e mãe morrem, curso natural, ainda mais quando sofriam de doença incurável (meu pai) e de recusa de tratamento (minha mãe). Mas quando se trata de irmã, a perspectiva muda. Irmãos se vão conforme a idade, é o que se presume, erradamente no entanto. Morre-se a qualquer momento por qualquer motivo, "encontro imprevisto", dizia o filósofo... Morte súbita, o coração pregando suas peças inevitavelmente, para sempre. Parou de bater, incrível, e incrível que em poucos instantes ainda havia vida. O poeta diz, "nunca mais", nossa mortalidade é deixada em segundo plano, convenientemente esquecida. E ela vem, a ...

Mudança para Curitiba

 Chegamos em Curitiba para morar e não mais para nos hospedarmos na casa da Augusto Stellfeld, com a vovó Cecília. Tio Fábio conseguiu uma casa para meu pai alugar, pertencia a um ex-prefeito de Curitiba, Abílio Ribeiro. Nossa primeira noite foi na casa do tio Luciano, vizinha à de minha avó. E qual a sensação de se ver em meio a tanta novidade? Insegurança, curiosidade, procurar objetos perdidos em meio à barafunda que chegou à casa nova, muito menor que a nossa da Lapa. Em terreno triangular, na esquina da rua do Herval com a Ubaldino do Amaral e comecinho da Visconde de Guarapuava. Jardim mal cuidado, garagem separada em frente ao pequeno quintal em cujo fundo abrigava-se uma ameixeira. Havia mais uma outra única árvore, no jardim da frente, que dava uma florezinhas amarelas. A novidade foi o chamado jardim de inverno, logo na entrada, com piso de cerâmica e extremamente frio no inverno, ora vejam... Nele foi instalada a máquina de lavar roupa, que nunca funcionou direito. Dali ...

Natal e fim da infância

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A expectativa da festa natalina era grande. Os pais viajavam com toda a família da Lapa para Curitiba para comprar os presentes nas lojas de brinquedos. Fazíamos, os que já sabiam escrever, uma lista de desejos em geral muito simples. No passeio à cidade grande na rua principal, éramos surpreendidos por um Papai Noel, a quem chamávamos de "Velhinho de Natal". Ele ficava sentado na porta da loja e oferecia balas retiradas de uma lata. Havia também a foto com o personagem.  De volta à pequena cidade, os presentes eram escondidos. Certa vez escalei o armário do quarto de costura e descobri os embrulhos lá em cima. Fiquei decepcionada  comigo mesma pelo achado, teria preferido a surpresa. Na véspera do dia 25, a mãe e montava o pinheirinho e nós saíamos para um passeio de carro com o pai. Era para não atrapalhar a lida com a árvore, que era "de verdade", com aproximadamente metro e meio, colocada com terra em uma lata. Os enfeites eram bolas, estrelas e outras peças ...