As feridas que marcam
Ontem, dia 26 de fevereiro, fez um mês da morte de minha irmã Leduína. Um acidente na infância nos marcou, a mim por me sentir culpada, a ela por perder parte do dedo médio. Foi ferida incurável. Levou muito tempo para eu entender que não se culpa uma criança pelas brincadeiras. Se hoje em dia pais e responsáveis estão mais atentos, até mesmo em demasia, na década de 50 ficávamos mais soltas, havia quintais, vizinhos, bairros e mesmo a pequena cidade da Lapa que não ofereciam perigo.
A ferida em minha irmã foi mais marcante, afetou a todos da família. Em um rompante de que apenas hoje me dou conta, soquei a vidraça da vizinha de minha avó, me machuquei de propósito. Era Natal e o vestido de festa ficou todo ensanguentado. Eu também precisava de uma ferida, de atenção e como que de resgate. No caso dela, um silêncio, a marca era disfarçada, vista como um defeito deveria ser escondida de todos. Claro que não dela. Um temperamento frágil e uma super proteção a fizeram dependente, incapaz de resolver questões simples da vida. Alguém determinava, em geral meu pai, os rumos de sua existência. Até quanto ao casamento. Em alguns anos este se desfez, com um bom fruto, a única e bem formada, bem resolvida filha, os dons de mãe da Leduína foram mais fortes, foi então bem cuidada pela mãe e bem protegida pelos avós em vários aspectos.
O sofrimento das dores na e da infância nos marcam, isso é mais do que sabido. A questão é como isso se dá, em que grau de profundidade, com quais efeitos. Muitas vezes são ocasionados por tarefas, por missões das quais a menina, o menino, se incumbem por receio da autoridade paterna ou materna. A criança teme seus pais, o temor reverencial. Outras vezes são os castigos, as surras, a vara de marmelo em cima da geladeira a lembrar que a punição virá. Uma cintada aplicada no traseiro, mas será que isso tudo tem efeito pedagógico, como é possível que a violência eduque?
São feridas que marcam, que fragilizam a pessoa para o resto de suas vidas.
O medo e a insegurança são o resultado tanto da superproteção como de violência, da virulência dos pais, em ambos os casos eles, os pais, erram. Em ambos os casos fazem de seus filhos criaturas frágeis, inseguras, dependentes materialmente e de aprovação dos outros. Dificuldades para decidir, para assumir responsabilidade em alguns, em outros a necessidade de se cercarem de mimos, de adulação, de passar a mão sobre a cabeça e dizer, "você está sempre certo/a".
Interessante que as doenças mais comuns com febre alta, vômito, diarreia produzem recordações que não marcam. Pelo contrário, são evocadas como lembranças, de certos cheiros, do quarto escuro, dos pesadelos febris, da injeção de eucaliptine na bunda, das comidinhas de doente, da atenção e agrados que só recebíamos quando de cama.
Parece que a dor mais aguda não é a de uma infecção, de uma catapora, de uma dor de ouvido ou de garganta. É a dor psicológica, aquela que faz de cada um de nós o tipo de pessoa que somos. Nosso temperamento, nosso caráter, nossas escolhas, o modo como nos justificamos, ou como fantasiamos, ou nos disfarçamos, nos escondemos ou nos revelamos. Está tudo ali, nas feridas que marcam.
A propósito de quê essas lembranças e reflexões? Em uma tentativa de alcançar a escada muito curta para descer da casinha do gás acabei de cara no degrau de tijolos. Abri o lábio superior, muito sangue, quebrei um pedaço de dente e fui para no pronto-socorro com 5 pontos. A quem eu pedi para segurar a escada não me atendeu (não entendeu?)... A dor física neste caso também é menor, muito menor do que a decepção, do que o voo ao chão.
Nos diferenciamos pelo modo como lidamos com aquilo que nos marcou.
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