Relances da vida, memórias de infância - Inês Lacerda Araújo


A ideia para este meu novo blog surgiu de conversa com minhas filhas e minhas primas. Por que não registrar minhas lembranças de infância?
Após muitos anos de vida profissional, aulas, publicações, congressos, e tudo o que envolve a vida de mãe e esposa, resolvi escavar os arquivos de minha memória. 
Farei isso sem ordem cronológica, mas indicarei a época aproximada em que ocorreu a situação ou o sentimento ou a emoção.
Entre as lembranças mais remotas, está a da casa de minha avó paterna, também chamada de "mansão" ou "casa grande". 

Casa Lacerda - Lapa PR

Quando meus pais se casaram, a dificuldade financeira era grande, então emprestaram o casarão e foi ali que eu nasci, mais especificamente na mesa da cozinha.
Dizem que meu pai e meu avô materno que estavam por perto, chegaram a desmaiar. Não para menos, pois minha mãe sofreu bastante neste que foi um parto difícil. Foi feito pelo Dr. Humberto Carrano, que precisou usar fórceps. Fiquei com as marcas para o resto de minha vida, e de vez em quando resolvia dramatizar dizendo que eu não queria nascer, vim ao mundo a custa de fórceps. Impressionava meus irmãos com essa narrativa...
A casa grande, como o nome indica, tinha cinco quartos, um banheiro que meu avô mandou construir para a filharada (depois eu conto) a sala do espelho, a sala de estar com janelões dos quais se avista o paredão de pedra no horizonte da cidade, local da Gruta do Monge.
A copa era ocupada pela extensa mesa, um guarda comida, pia para higiene das mãos, um balcão com dois filtros de barro. Nos anos 1950/51 ainda não havia a pequena geladeira, luxo que viria algum tempo depois.
A cozinha, com suas mesas e armários, era dominada pelo fogão a lenha. Do lado de fora, ficava o terraço com suas cadeiras de balanço e redes; saindo da cozinha uma extensão da casa com mais quartos e um banheiro; do lado oposto um terreno com balanço e barra para exercício.
Eu não deveria usar os verbos no passado, pois até hoje a casa permanece, desde algum tempo como museu "Casa Lacerda".
O episódio remoto a que me referi no início, foi uma "excursão" ao quintal dos fundos, em parte dele um milharal. Nele me embrenhei e acabei dando na casa de Seu Ambrósio, o caseiro já bem velhinho.
Eu o chamava de "Inhonhóso". Chão batido, fogão aceso, cheiro de fumaça e cigarro, um sorriso bondoso mostrando os poucos dentes amarelados. Imagem da bondade e mansidão de espírito.
Memória que conforta.

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