Jardim de infância

O colégio São José ficava a uma quadra de casa. Nossa casa na Av. Manoel Pedro, o colégio na rua Barão do Rio Branco. A Lapa nos anos 50 era uma tranquila cidade do interior, poucos automóveis, entre eles se destacavam os de Lindolfo e do Juca, os motoristas de praça. O movimento maior era o de carroças que transportavam mercadorias das colonias e até mesmo o lixo era recolhido por carroça. Não havia perigo em atravessar a rua Barão e chegar ao colégio. Mesmo assim minha mãe se preocupava e em geral a pagem acompanhava. Estranharam o nome de "pagem"? Era assim que se chamava às babás.
Entrava-se no colégio, que ocupava quase toda a quadra, pelo portão do lado, que dava acesso ao pátio externo e ao pátio interno. Neste havia bancos junto às paredes.
A sala do jardim de infância era a última, crianças se agrupavam em mesinhas, com seus lápis e cadernos. Predominava o cheiro do grafite dos lápis, misturado ao das crianças. O quadro negro só era acessível aos professores, quase sempre freiras. E havia o cheiro delas, as freiras parecendo o de armário de roupas, ao mesmo tempo acolhedor: quando havia choro, um abraço envolvia as crianças com o hábito preto.
A dificuldade era a de empunhar o lápis, acertar a linha, começar com os pauzinhos um ao lado do outro para treinar a escrita.
Mais adiante, no 1° ano, as continhas de somar e subtrair e o livro de Português com as histórias de Pedrinho, Maria Clara, os pais destes, a avó, que descrevia situações ingênuas do dia a dia. 
Em sala, todos obedeciam, não havia barulho, perturbação e se houvesse, reguada na mão e castigo ajoelhado de frente para o quadro negro. Mas isso era raro. Descontração no recreio, com a roda acompanhada de cantigas, ou pulávamos corda, ou caia (hoje se diz "amarelinha").
As freiras eram chamadas de ma Soeur (nós dizíamos "masér"); a do primeiro ano era a irmã Georgina, de uma afabilidade e de uma paciência sem fim.
No fim do ano havia prêmios, pequenas lembranças e sempre uma apresentação no palco do auditório do próprio colégio. A apresentação que me vem à lembrança mais remota, é a de fantasia de pintinhos, feita no capricho pelas mães que em geral sabiam costurar. Caso da minha mãe. O tecido era amarelo ovo, uma pelúcia. 
Emoção, alegria, despreocupação, e tudo parecia andar nos eixos.

Comentários

  1. Dessas festas de final de ano no Colégio, como convidado (quatro anos mais novo), minha primeira lembrança de cinema: um filme mudo, comédia do Gordo e do Magro. A paixão por filmes talvez tenha vindo dali.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Mudança para Curitiba

As feridas que marcam

Natal e fim da infância