Tia Vera

Disposição, organização, múltiplas habilidades, presteza, assim era a incansável Tia Vera.
Oito filhos, quase que em seguida um do outro. A casa onde moraram na Lapa, antes da mudança para Curitiba, ainda serviu durante muitos anos para as férias. Quartos enormes, idem a copa, a sala e a cozinha. Acanhado e simples era o único banheiro, as crianças precisavam esperar que o ocupante se decidisse a sair.
As filhas Nina e Vera Maria organizavam a casa logo cedo, nossas brincadeiras só podiam começar depois de elas varrerem os quartos, passarem a enceradeira, com as camas já arrumadas.
E esse era um dos segredos da casa sempre em perfeita ordem, a distribuição de tarefas.
Assim Tia Vera conseguia dar conta de tudo, tricotar, costurar, atender os mais novos, cozinhar, satisfazer os gostos e hábitos de meu tio, Luciano.
Este só dormia com absoluto silêncio, conta-se que chegou a dar um fim no galo do vizinho cujo canto deveria ser alto no silêncio da cidade pacata.
Se entrássemos na casa durante a sesta, tínhamos que ficar caladas e esperar para fazer algazarra longe da janela dos quartos.
Os cafés da tarde eram impressionantes, pois a tia convidava os parentes que também passavam as férias no casarão de minha avó. Ela arrumava aquela mesa comprida que recebia uma sucessão de xícaras e pires.
Do forno saiam bolinhos, um sonho que era um sonho, o famoso mata-fome. A Ceição, que morava nos fundos da casa, ajudava. Mas era ela quem muitas vezes até o fogão a lenha areava. 

Certa vez fui com minha mãe uma tarde em visita. Era verão, no pátio havia duas pedras retangulares, enormes, que ficavam encostas junto às paredes e serviam de banco. E tia Vera apoiou a perna numa dessas pedras para mostrar à minha mãe uma pinta que tinha na coxa. Aquela visão me assustou, fiz xixi na calça e saí na desabalada para minha casa. Claro que as duas acharam a maior graça!
Quando perguntei já adulta como ela fazia para dar conta de tudo, me disse que levantava à noite para dar a mamadeira para o bebê da vez, sem acordar...
O espírito leve, ao mesmo tempo intransigente com desordem, operava o milagre de cada coisa em seu lugar, a frase marcante era: "Nada de frege". E assim tudo funcionava, sem bagunça.
Ao mesmo tempo a casa era alegre, o gramado ao lado servia de campo de futebol, os meninos Lucianinho e Marcelo tinham cada um seu time, os menores viviam no quintal, explorando as árvores de fruta: um raro pé de laranja (chamada de "fruta pão'), os de mimosa, ameixa. 
Se algum parente precisava de ajuda, lá estava ela. Mesmo com bebê de meses, aparecia em nossa casa para dar leite de conta gotas para mim, recém-nascida e com mandíbula machucada devido ao parto difícil de minha mãe.

Sorrir e enfrentar, era assim com ela.

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