O escritório de meu pai

A placa em frente de casa anunciava, escritório de advocacia, Francisco Brito de Lacerda.
Os primeiros anos foram difíceis, até que aos poucos apareceria a clientela. Foi ganhando confiança e o serviço aumentou.
Todos os dias, ali pelas oito, depois do café bem forte e do primeiro cigarro, era só atravessar a sala da frente e entrar pela porta lateral.
Já na sala havia uma estante em que colecionava pareceres jurídicos, todos eles encadernados em capa dura vermelha. Fazia um bom efeito na decoração.
No escritório a mesa de trabalho, estante com porta de vidro, um arquivo de madeira, pequeno móvel que se abria por uma porta de esteira. Nele eram guardados em geral os inventários.
Numa mesinha ficava a máquina de escrever. Muito inábil e desajeitado para tarefas manuais (com exceção de fixar pregos), naquela máquina preta, a fita rodava rapidamente. Se não me engano, a marca era Royal. Os toques eram precisos, errar implicava em estragar a página. As cópias eram feitas com uso de papel carbono. Cigarro no canto da boca, os clientes iam narrando suas questões e indicando os bens no caso dos inventários. O trabalho rendia.

Caneta tinteiro, mata borrão, papel mais simples para a escrita inicial e depois tudo era passado a limpo em papel branco, com margens prontas.
Na parede, um quadro de Gandhi, a quem admirava. Também preso à parede um besouro, sim, um grande besouro seco com injeção de álcool. Nós, crianças ficávamos intrigadas. O que fazia ali um inseto ao lado de um revolucionário?
Às vezes entrávamos e bisbilhotávamos as gavetas. Certa feita encontrei um manual de inglês para principiantes. Nele a primeira palavra que aprendi "boy", e a magia das línguas ali nascia.
Brincadeiras e algazarras tinham que respeitar silêncio quando se passava ao lado do escritório. Ouvíamos os toques da máquina, vozes ao fundo. A brincadeira de andar rente à parede trepados no alicerce tinha que ser interrompida em respeito ao trabalho do pai.
Os clientes chegavam das colônias (Mariental, Joanisdorf, Água Amarela, Antonio Olinto) e mesmo de municípios vizinhos. Em geral vinham de carroças, os cavalos permaneciam quietos à espera dos donos.
As polacas, com suas saias rodadas e compridas, amamentavam seus pequenos e papeavam, ou na escada quando o tempo era bom, ou no terraço da frente. Elas tinham o hábito de guardar dinheiro dentro da blusa. 
Dr Chiquinho, como meu pai era conhecido, tinha que resolver brigas frequentes nos inventários. E algumas defesas no Fórum que repercutiam na cidade. 
O trabalho se encerrava após o café da tarde. Então saíamos passear e fazer compras de carro.

Do escritório ficaram o cheiro de cigarro, toque-toque da máquina de escrever, e ele ágil, concentrado, com seus óculos, terno e gravata. 

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