Tia Lourdes

Parecia um longo caminho até a casa da Tia Lourdes, mas eram 5 quadras apenas, precisava passar pelo asilo das meninas órfãs e fazer o sinal da cruz em frente à pequena gruta com imagem de Nossa Senhora.
A casa ficava duas quadras adiante, numa esquina e na esquina oposta havia o açougue de meu tio, Tio Carlito.
Ao entrar pela cozinha,  sentia-se o cheiro dos pães recém saídos do forno, postos para esfriar na mesa redonda, sempre cobertos por causa das moscas. E estas devido aos animais, vacas e porcos, que habitavam o enorme quintal. Certa feita experimentei e não gostei do leite tirado na hora pela Tia Lourdes, com espuma e ainda quente.
Havia na passagem para o quintal uma casa que servia de lavanderia, com um tanque enorme e uma laranjeira que carregava. As laranjas eram retiradas de baciada, e lá estávamos nós, eu, minha irmã e a prima de minha idade, Beatriz, mais a tia e minha mãe. Laranjas eram descascadas apenas na tampinha onde púnhamos um pouco de sal para tirar a acidez. Estômago cheio, ia até balançando quando reiniciavam as brincadeiras.
Irene, a cozinheira, tinha um quartinho abarrotado de revistas, as fotonovelas, que eu lia só para confirmar o final feliz do casal. Mas os melhores pratos saiam das mãos da tia, saborosa até a salada de alface. No quarto onde ela costurava, nas prateleiras de cima ficavam as conservas de frutas e de pepino. Foi nesse quarto que a tia furou nossa orelha, e às vezes cortava nosso cabelo. Como eu disse, uma pessoa de muitas habilidades, hoje diríamos, "multitarefa". Costurava rápido, prestimosa, acertava todas as roupas, recebia encomendas e dava conta de tudo com prazer. 
Certa feita, dormi em sua casa e exagerei na delícia de sobremesa, fazia calor, tive que dormir no chão para refrescar e digerir.
Foi dessa vez que saímos para passear, Tia Lourdes nos levou até a praça, e descobri a noite. Enorme excitação de estar fora do quarto e fora do horário estabelecido por nossa mãe, oito horas. Cheguei a escalar um poste de tão alegre.
Havia ao lado da casa, da casa antiga que depois foi reformada, um casarão de madeira, ficou uma imagem, a da filha da dona Virgínia, tendo ao lado o menino com o qual nos comovíamos, porque não tinha pai.
E no lado direito do açougue outro casarão de madeira, uma espécie de depósito, com dois pavimentos, uma escada que levava ao sótão. Algumas vezes fumávamos, acho que sem tragar, cigarros afanados da tia. E ela achava graça ao enxergar a fumaça saindo pela vidraça. Não era "infração" grave, quase todo mundo fumava...
E o concurso entre minha irmã, eu e Beatriz para ver quem aguentava mais tomando sol, sol do meio dia!
E ainda um paiol que abrigava espigas secas de milho, um cheiro gostoso de palha, a despreocupação e o deixar-se levar pelas horas calmas da infância.

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