Rios, piscina, poços: as águas e a falta delas

Meu pai dizia que a topografia da Lapa parecia com a de uma bacia de ponta cabeça. Logo depois da chuva, as ruas logo se apresentavam secas.
E no período de seca, os riachos que abasteciam a cidade minguavam e nada de água em casa. O jeito era apelar para os poços, quase todas as casas tinham o seu. Nós não... Então precisávamos pedir para o vizinho de frente, um terreno plano, todo gramado, onde pastavam algumas vacas. De balde em balde, a casa era abastecida. Tomávamos banho em uma pequena tina, até que a caixa de água se enchesse novamente. 
Quando havia problema com a boia, e isso era frequente, meu pai subia pelo armário do banheiro, dava um impulso e entrava no forro para verificar o problema. Tentei uma vez essa aventura, sem sucesso... 
Outro modo de captar água era pela nascente, havia uma de água cristalina e fresquinha, mas como ficava a três quadras, só usávamos para tirar a sede.
Em dias de chuvarada as brincadeiras eram dentro de casa, montar cabana e olhar pela janela à espera da chuva passar e ir para a rua onde a água ainda corria pelo meio fio feito um rio de verdade.
Às vezes o passeio da tarde, quando nós os quatro irmãos montavam no Chevrolet 38, incluía o rio Piripau. Isso no verão era uma delícia, o mais fundinho do riacho ficava debaixo da ponte. Água transparente, alguns peixinhos e muitas rãs e sapos. Acreditávamos que o coaxar deles eram bebês chorando antes de nascerem. Quanta inocência!
Os maiôs eram feitos pela minha mãe, um modelo de frente única, em tecido de algodão, meio incômodo. Maiôs "comprados feitos" só mais tarde e já na piscina do Lapa Country Club. Esse nome não corresponde nem um pouco ao clube. Dava para ir a pé, não muito longe do centro, um portão de madeira e cerca de arame farpado, depois uma descidona até a piscina. No começo, uma escavação que foi cimentada. Nunca se enchia completamente, ficávamos na parte do fundo, que tinha um pouco mais de água. Assim mesmo a "inauguração" do clube foi um acontecimento.
A piscina do Monge, de água congelante, só existiu mais tarde.
Quando a família Lacerda se reunia no verão, um dos programas era o tanque do Nestálio, esse sim, com uma queda d'água e fundo.
Tia Eza deu algumas instruções de como nadar, e eu, metida, tentei, afundei e vi a água como em turbilhão sem que eu pudesse voltar à tona. Meu primo, Lucianinho, me retirou pelos cabelos. Estava salva...
Os poços eram a solução e também um problema. O da segurança, principalmente para as crianças. Era um dos pavores de minha mãe.
No pátio interno da padaria de meus avós, havia um poço, bem próximo à porta da cozinha que admirávamos e temíamos ao mesmo tempo. Plaf do balde lá embaixo, e a corda sendo puxada pela manivela, balde cheio.
Longe do poço crianças, que "o diabo atenta!"

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