Religiosidade

A infância em colégio católico, o já mencionado Colégio São José, em pequena cidade do interior, significava religião por toda parte e a cada momento do dia, da semana, do mês e do ano.
As celebrações da religião católica na década de 50 eram solenes, a Igreja Matriz de Santo Antônio, era como um ímã um ícone, um símbolo e local sagrado, tudo ao mesmo tempo na praça central. 
A cada domingo ali eram celebradas duas missas, a primeira às 7 da manhã, a segunda às 10.
Cedo iam as mulheres beatas, para a missa das 10 acorriam colonos em suas carroças. Sino da Igreja e cincerros dos cavalos se misturam, uma sonoridade alegre e melodiosa que rompia o silêncio das manhãs de domingo.

Nos dias santos além da missa, havia as procissões, a mais impressionante, a da 6a. feira da Paixão. Noite de inverno, a lua cheia, a imagem do Senhor morto, os fiéis com suas velas e o ponto alto: a parada para se ouvir o canto de lamento e luto da Verônica. A cantora desenrolava a pequena imagem de Jesus com a coroa de espinhos gravada em um pano à medida que soltava sua voz.
Na mesma sexta-feira se fazia silêncio, a rádio Legendária transmitia músicas sacras, os santos dos altares eram cobertos com manto roxo, praticava-se jejum e abstinência de carne.

A casa do padre ficava na mesma praça. Monsenhor Henrique, alto, solene, vagaroso no andar e no falar, dirigia uma baratinha verde (pequeno carro modelo esportivo). Havia padres auxiliares, mas o Monsenhor era permanente.

Todo domingo a missa das 8 no Santuário de São Benedito era minha obrigação. Pecado mortal faltar, requeria confessar-se. E o que nós crianças confessávamos? Mentiras, palavrões, desobediência aos pais, e pensar em "coisas feias". Para sermos perdoadas, bastavam um Pai Nosso e dez Ave-Marias. Havia as proibições, como as meninas vestirem calças compridas, as freiras as chamavam de "Joãozinho". Às filhas de Maria era vetado o carnaval, as que ousavam ir eram denunciadas e o castigo, sua expulsão. Escândalos iam parar debaixo dos colchões. 

Se as primas Nina e Vera Maria iam junto à missa das 10, em geral nas férias de verão, a dificuldade era conter o riso, que vinha sufocado e por motivos os mais insignificantes. Por vezes tínhamos que sair da igreja sob o olhar severo das beatas.

Eram obrigatórias as aulas de catequese antes da primeira comunhão. Importava decorar todo o catecismo com os ensinamentos básicos do credo católico. Algumas aulas foram dadas em um depósito próximo ao campo de futebol. E ir até lá sozinha uma aventura.

E que dizer do vestido super caprichado para receber a primeira comunhão? Era sempre no mês de outubro, os lírios floresciam e os levávamos conosco no grande dia. Algumas crianças passavam mal devido ao jejum necessário para receber a hóstia consagrada. 
Primeira Comunhão, 1959

No colégio havia aula de religião, aprendíamos noções do credo católico, as descrições do Inferno aterrorizavam os alunos. Chamas eternas que ardiam sem que os pecadores morressem, sofrimento para sempre. Havia a espera no Purgatório para as almas que precisavam de um tempo de penitência antes de entrar nas portas celestes. O Céu era reservado para os puros  que eram recebidos por anjos, santos, e bem no alto e no fundo, Deus Todo Poderoso. Como não fixar essas imagens?
Para ilustrar a Santíssima Trindade, a irmã Celestina usava três velas acesas, que formavam quando juntas uma só chama para simbolizar a Trindade: Deus Pai, Jesus e o Espírito Santo. O mais misterioso era o Espírito Santo, pois que representado por uma pomba branca...

Com a fé simples e inocente toda a comunidade como que se irmanava pela sentimento religioso, a vida seguia, pois sem igreja, sem as comemorações, sem as bênçãos, não era vida.

Triste era ver passar o enterro de "anjos", as crianças, em caixões brancos, cercados de uns poucos familiares.
Cemitério era o lado oposto ao da igreja, as visitas tinham que ser frequentes, levavam-se flores dos jardins, havia que se conformar com a morte. Um alívio sair e olhar para o azul do céu. Nele estariam as almas imortais?!

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