As doenças e acidentes da infância
A vacina Sabin entrou em uso comercial em 1961. Era comum ver crianças em aparelhos ortopédicos, muletas, nos impressionavam com seu andar difícil, muitas morreram com poliomielite.
Mas não eram apenas essas doenças mais visíveis. Havia de tudo, em nossa casa volta e meia um dos quatro filhos ia para a cama com febre, vômito, crises de asma, e outras mais graves como caxumba, hepatite, sarampo. Contra a varíola, que deixava o rosto cheio de furos, já havia campanhas de vacinação. No colégio, ano de 1958, em uma dessas campanhas as crianças eram inoculadas por meio de agulhas, sem a devida higiene. Várias agulhadinhas para o "remédio" penetrar e no dia seguinte vinha o resultado: febre, ferida, inchaço e as duas cicatrizes para o resto da vida.
A cada vez que um filho adoecia, pai e mãe desesperados, e lá vinham o termômetro, cataplasmas, o quarto imerso no vapor de folhas de eucalipto. O mais difícil de as crianças enfrentarem eram as injeções.
O pai virava um prato fundo, acendia o álcool na tampa da pequena caixa metálica com água na parte de cima até que agulha e seringa fervessem. Num sopro o fogo era pagado. O máximo ato de coragem era receber a agulhada em pé, sem choro!
Aguardávamos a chegado do médico, o exame da garganta era o pior de todos, dava ânsia de vômito. As noites mal dormidas de minha mãe, que surgia à beira da cama para verificar a febre e se certificar de que a criança respirava, se misturavam aos pesadelos causados pela febre.
As dores mais agudas eram as de ouvido, as de garganta menos, tratadas com lenço embebido em álcool em volta do pescoço e a recomendação de no dia seguinte não sair no frio.
Se o doente não se recuperava logo, rápido para Curitiba consultar com o médico salvador de todos os males. O pediatra, Dr. Plínio.
Fora as doenças, os muitos ferimentos. Joelho ralado, quedas, machucados e a ida mais que depressa na farmácia quando em casa faltava esparadrapo, gaze, mertiolate ou sulfa. Sim, usava-se um pozinho branco, verdadeiro milagre para fechar e descontaminar feridas.
A bicicleta ganha no Natal e com na qual consegui me equilibrar depois de muitos tombos, foi parar certa manhã na calçada detrás do terraço.
"Vamos virar de ponta cabeça e brincar de girar o pedal?"
Sim, a irmã mais nova concordou.
Alguns giros e ela, que estava do lado da correia, prendeu a falange do dedo médio. Um desespero, impossível girar nem para trás nem para frente. Os gritos de dor dela e o meu grito quando cheguei correndo na cozinha. A mãe largou a faca com a qual limpava carne (por que não esqueço desse detalhe?!), todos correram, mais gritos. Seu Trajano, vizinho do lado viu e ouviu a cena terrível. Com alicate conseguiu liberar o dedo. No hospital mais sofrimento, uma tentativa mal sucedida de costurar a falange. Não houve cicatrização, foi preciso amputar alguns dias depois até a parte sã.
E o que se seguiu: a bicicleta foi parar no forro da garagem, a tática do silêncio em torno da perda, esconder a falha, negar a evidência. E essa negação transformou um acidente em trauma. Eu culpada, a irmã, marcada pela mutilação.
Sem orientação de como seria melhor reagir, a vida da infância repercutiu na vida adulta.
As crianças sofriam quietas, o silêncio era a regra.
Mas não eram apenas essas doenças mais visíveis. Havia de tudo, em nossa casa volta e meia um dos quatro filhos ia para a cama com febre, vômito, crises de asma, e outras mais graves como caxumba, hepatite, sarampo. Contra a varíola, que deixava o rosto cheio de furos, já havia campanhas de vacinação. No colégio, ano de 1958, em uma dessas campanhas as crianças eram inoculadas por meio de agulhas, sem a devida higiene. Várias agulhadinhas para o "remédio" penetrar e no dia seguinte vinha o resultado: febre, ferida, inchaço e as duas cicatrizes para o resto da vida.
A cada vez que um filho adoecia, pai e mãe desesperados, e lá vinham o termômetro, cataplasmas, o quarto imerso no vapor de folhas de eucalipto. O mais difícil de as crianças enfrentarem eram as injeções.
O pai virava um prato fundo, acendia o álcool na tampa da pequena caixa metálica com água na parte de cima até que agulha e seringa fervessem. Num sopro o fogo era pagado. O máximo ato de coragem era receber a agulhada em pé, sem choro!
Aguardávamos a chegado do médico, o exame da garganta era o pior de todos, dava ânsia de vômito. As noites mal dormidas de minha mãe, que surgia à beira da cama para verificar a febre e se certificar de que a criança respirava, se misturavam aos pesadelos causados pela febre.
As dores mais agudas eram as de ouvido, as de garganta menos, tratadas com lenço embebido em álcool em volta do pescoço e a recomendação de no dia seguinte não sair no frio.
Se o doente não se recuperava logo, rápido para Curitiba consultar com o médico salvador de todos os males. O pediatra, Dr. Plínio.
Fora as doenças, os muitos ferimentos. Joelho ralado, quedas, machucados e a ida mais que depressa na farmácia quando em casa faltava esparadrapo, gaze, mertiolate ou sulfa. Sim, usava-se um pozinho branco, verdadeiro milagre para fechar e descontaminar feridas.
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A ferida que não cicatrizou nunca em nossas almas e corações foi a do acidente.A bicicleta ganha no Natal e com na qual consegui me equilibrar depois de muitos tombos, foi parar certa manhã na calçada detrás do terraço.
"Vamos virar de ponta cabeça e brincar de girar o pedal?"
Sim, a irmã mais nova concordou.
Alguns giros e ela, que estava do lado da correia, prendeu a falange do dedo médio. Um desespero, impossível girar nem para trás nem para frente. Os gritos de dor dela e o meu grito quando cheguei correndo na cozinha. A mãe largou a faca com a qual limpava carne (por que não esqueço desse detalhe?!), todos correram, mais gritos. Seu Trajano, vizinho do lado viu e ouviu a cena terrível. Com alicate conseguiu liberar o dedo. No hospital mais sofrimento, uma tentativa mal sucedida de costurar a falange. Não houve cicatrização, foi preciso amputar alguns dias depois até a parte sã.
E o que se seguiu: a bicicleta foi parar no forro da garagem, a tática do silêncio em torno da perda, esconder a falha, negar a evidência. E essa negação transformou um acidente em trauma. Eu culpada, a irmã, marcada pela mutilação.
Sem orientação de como seria melhor reagir, a vida da infância repercutiu na vida adulta.
As crianças sofriam quietas, o silêncio era a regra.
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