Minha irmã Leduína
Eu estou aqui, agora, escrevo, vejo-me diante do computador, em minha casa, sons dos carros, latidos de um cachorro, vou preparar o almoço, estou viva. A irmã mais nova, contrariando a expectativa de que viveria mais do que eu, não está mais aqui. Não vai mais enviar mensagens, telefonar, se queixar, mostrar toda sua fragilidade e apego ao que a mantinha à tona.
Pai e mãe morrem, curso natural, ainda mais quando sofriam de doença incurável (meu pai) e de recusa de tratamento (minha mãe). Mas quando se trata de irmã, a perspectiva muda. Irmãos se vão conforme a idade, é o que se presume, erradamente no entanto. Morre-se a qualquer momento por qualquer motivo, "encontro imprevisto", dizia o filósofo...
Morte súbita, o coração pregando suas peças inevitavelmente, para sempre. Parou de bater, incrível, e incrível que em poucos instantes ainda havia vida. O poeta diz, "nunca mais", nossa mortalidade é deixada em segundo plano, convenientemente esquecida. E ela vem, a temida e indesejada.
Irmã mais nova para mim era para ser cuidada, priorizada, como mais velha dar o exemplo, conceder, compreender. Desde as brincadeiras da infância, dois castelos de areia, "pai, qual está mais bonito?" e ele: "o seu, mas o da Leduína é mais original", até a mocidade, em seu jeito de ser e de pensar. Era alegre, fez muitas amizades, gostava de se divertir, viajar, festejar, ouvir música, dançar, cozinhar. Colégios representavam mais uma oportunidade de fazer amigas do que de avançar nos estudos.
As saídas à noite, sempre juntas, chegávamos tarde e nossa mãe sem dormir, espiando da janela, preocupada. Os primeiros namorados, nem sempre namoros descomplicados. Finalmente o casamento, com um amigo do irmão, amor e instabilidade se sucedendo, o nascimento da Constança, minha afilhada, a neta querida e sobre a qual meus pais armaram um guarda-chuva protetor.
O casamento se desfaz, e começa o fechamento de portas e de mente. O pai morre, o choque não é absorvido, ela sofre, como ficaria seu sustento? A mãe morre, as mesmas dúvidas se acentuam, a mente fecha ainda mais, e vêm as manias, a escuridão, o mergulho no sem sentido, alucina.
Depois de anos, quase uma década, a lenta recuperação no dia a dia com atividades que preenchiam sua cabeça e corpo, que afastavam certas manias, conversas até certo ponto razoáveis, preocupação com o futuro. E sobrevêm o abalo com a morte de seu ex-marido, Luiz Otávio, em acidente fatal, a morte do marido de sua melhor amiga, e, dias depois, quando se aprontava para uma vida mais independente e por que não, feliz, sua morte. Assim, súbita, que nos deixa desolados, chocados.
Como é possível que ali naquela cama fosse seu corpo? Triste, muito triste...
E ela nos pregou sua peça final.
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