As paradas escolares de 7 de setembro
Na Lapa de minha infância, o Colégio São José era um centro de integração na pequena comunidade. As freiras e seu ensino eram prestigiados, o prédio era como que um marco na rua Barão.
Uma das atividades esperadas com ansiedade eram os desfiles, também chamados de paradas do dia 7 de setembro. O primeiro treino no pátio interno servia para a formação das filas, retas, para acertar o passo direita esquerda, direita esquerda. Muitas tentativas depois, os grupos por turma poderiam sair às ruas para novos ensaios.
No fim de agosto, inícios de setembro havia dias de sol e calor, apesar da estação inverno. Com sede, alguns alunos batiam na porta das casas para pedir um copo d'água e eram de pronto atendidos.
Suados e cansados, retornávamos ao colégio, cada vez mais confiantes e preparados para fazer bonito no dia tão aguardado.
Quando eu estava no 3o ano, as filas se formavam por tamanho e eu, entre os mais baixinhos ficávamos nos primeiros lugares. Minha esperança era, no ano seguinte, carregar a bandeira correspondente ao curso primário, privilégio do último ano primário.
No ano seguinte, 1960, eu no 4a ano, a ansiedade de poder levar o estandarte foi por terra... A Irmã Áurea mudou a ordem da fileira, primeiro os mais altos! E lá fui eu, sem saber qual sentimento havia em minha alma, ainda não sabedora do significado de frustração, para o último lugar da fila!
De qualquer modo, a imponência do dia acabou por suplantar a decepção. Uniformes de gala, concentração e apresentação o mais próximo possível da perfeição. Aplausos da assistência e nós seguíamos sérios e compenetrados.
Participavam da parada as demais escolas, os grupos escolares em guarda-pó branco e por último o imponente exército, este sim, cadenciado, com o ruído seco e compassado dos soldados. Emocionante.
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E hoje? Multidões são convocadas nas redes sociais com intenção de revanche, de demonstração raivosa em defesa de um governante Jair Messias Bolsonaro que precisa e deve no futuro ser lembrado como uma triste página de nossa história. Ele, em vez de inspirar o respeito, incita temor para dizer o mínimo.
A esquerda (lembram do MST?) que deveria ser criticada, com seu ex-presidente e seus asseclas seguidores de uma ideologia caduca e que, supostamente levaria ao país justiça e honestidade, acaba por ressurgir justamente por efeito dos desmandos do atual presidente.
O simbolismo da data, Dia da Independência, perde o sentido. A parada cívico-militar dará lugar aos bandos que usam a bandeira como sua identidade. A mesma bandeira que era empunhada com honra e respeito...
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