Os armazéns da Lapa na década de 50
Na minha vizinhança, av. Manoel Pedro, ficavam armazéns com grande freguesia, como o dos Kuss (será essa a grafia?), do Seu Guerino, das irmãs Delgadio, a padaria de meu avô, e mais longe, no fim da mesma rua à direita, as vendas de cereais, entre elas a dos Pierin.
Vendia-se de tudo um pouco, para usar a qualificação antiga, secos e molhados. No seu Guerino predominava o cheiro de fumo, cujos rolos ficavam logo na entrada. Havia um balcão de madeira em L atrás do qual atendiam o próprio Seu Guerino, alto, meio calvo, rosto cheio e simpático, um constante sorriso e sua irmã com três filhas que moravam no próprio imóvel do "negócio". Assim eram também chamados os armazéns.
No balcão os vidros de doces e a balança para pesar arroz, feijão, trigo, farinha de milho e de mandioca. Nas prateleiras os enlatados. Pendurados num arame as linguiças e salames.
Ainda havia bananas, só as caturras, e ainda no chão algumas utilidades, entre elas cordas que pedíamos para medir e cortar, e claro, servia para a brincadeira predileta das meninas. Não me lembro de ter visto meninos pulando corda.
Atrás do balcão esquerdo ficavam alguns tecidos, chapéus e umas peças de vestuário.
Os clientes mais habituais usavam a caderneta, nela se anotavam as compras e o pagamento era feito no fim de cada mês.
As crianças eram atraídas pelos pirulitos, as balas Todeschini e os chocolates Diamante Negro e Sonho de Valsa, da Lacta.
Outro armazém memorável, o das donas e irmãs Assunta que pronunciávamos Sunta, e Ana. Já com idade avançada elas tinha a ajuda de um rapaz. Ambas se movimentavam lentamente, dava para ouvir o rastejar de seus chinelos. O produto mais apreciado inclusive por quem vinha da capital, era o polvilho. "Não há como o polvilha da 'Sunta'". Mesmo nos domingos, com o armazém fechado, elas eram solicitadas pelo corredor com acesso pela rua Barão. Batia-se palmas até que uma delas ouvisse e viesse no seu passo cadenciado atender o pedido, nem sei quantos quilos de polvilho.
Na hora do recreio do Colégio São José, no outro lado da rua, corríamos para comprar bala de coco queimado. Dona Assunta parecia adivinhar o nosso pedido, e atendia com o mesmo sorriso nos lábios.
Havia compras especiais, de arroz soltinho e feijão novo. Para estas precisávamos ir de carro. Os quatro irmãos iam atrás, primeiro um passeio pela cidade, depois pegar o início da estrada para o rio Piri-pau onde ficavam o armazém do arroz e mais abaixo, o do feijão, acondicionados em sacos pardos de papel.
Em casa, banho, janta e cama.
Super mercado? Nem pensar...
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