O tanque do Nestálio

 Era o verão de 1958, Lapa, férias e muito calor. Sem piscina (que ainda seria construída e anos depois abandonada), os passeios em busca de rios, cachoeiras ou até mesmo banhos de mangueira valiam para refrescar e, principalmente, divertir.

Numa destas tardes, não diria tão fagueiras assim, pais, tios e a primarada Lacerda saímos para um desses passeios. O escolhido foi o tanque do Nestálio. O rio da Várzea ficava longe, o Piripau, muito acanhado para tanta gente.

Cada família levava seu farnel, um tipo de piquenique, mas a diversão mais esperada era o mergulho no dito tanque. Claro que não era um tanque tão pequeno, nem tão fundo. De uma parede que servia de dique, escorria água, formava-se quase que uma cascata.

Com a roupa de banho, geralmente improvisada, caíamos na água, um tanto fria, mas logo a gente se acostumava. 

Eu tinha meus 8 anos incompletos, adorava uma água, a ponto de entrar no tambor que armazenava água no nosso tanque de lavar roupa, o nome "lavanderia" não nos era conhecido e nem se prestava. Difícil era sair do tambor, desses que não se usa mais nos postos de combustível.

O que a gente queria mesmo era farra. E tia Eza e tio Ivar eram os comandantes das farras e brincadeiras.

Ensaiei algumas braçadas, não sabia boiar e nem nadar. Tia Eza viu a cena e resolveu que eu iria aprender a nadar. Segura em seus braços, fiz algumas tentativas, achei que já sabia nadar. Aula finda, resolvi que sim, eu iria nadar. Nas primeiras tentativas afundei. A água turva, o corpo se debatendo, medo que se transformou em pavor. Até que alguém me puxou pelo cabelo. Era o primo, a quem todos chamavam de Lucianinho para distinguir do nome de seu pai, Luciano.

Nem sei qual foi minha sensação, se alívio, se susto, se lição para o resto da vida. 

Do que recordo, e muito bem, foi do rosto do rapazola, meio rindo, meio brabo.

É bem provável que eu teria me afogado, não fosse a argúcia dele, Lucianinho. 

Cheguei aos meus 72, quase 73 anos. E ele se foi, alguns dias atrás, depois de muito vai e vem de hospital, preso a aparelho. Em certo sentido, libertou-se. 

A ele minha homenagem e agradecimento.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Mudança para Curitiba

As feridas que marcam

Natal e fim da infância